Jaya e as mosqueteiras


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O Universo da Solidariedade Galáctica


 

Capítulo 1: encontro no hiperespaço

 

 

Anael finalmente recebeu o sinal esperado. Jaya vestiu seu traje espacial cor-de-rosa, abriu a escotilha e, junto com Virtual Boy, saltou para o vácuo.

Como sua nave continuava invisível, Jaya tinha a sensação de flutuar no nada, a mais de 36 mil quilômetros do objeto mais próximo: a Terra-2, que naquele momento eclipsava o Sol. Via-se também a Lua-2, bem mais distante. E milhões, milhões de estrelas.

Mas ela sabia que havia mais um grande objeto, bem próximo. Mas também muito distante, de certa forma. Nem os sofisticados sensores de Anael conseguiriam percebê-lo, se não tivesse sido chamado através do transceptor quântico.

– <Onde estão eles, Anael?>

– <Meu nome é Virtual Boy, já falei!>

– <Tá bom, Virtual Boy, para que lado?>

– <Do seu ponto de vista, o portal está 325 metros à esquerda e 127 metros acima. Ali, onde o espaço-tempo está um pouco distorcido.>

Jaya acionou os impulsores do seu traje espacial e voou até onde Anael, digo, Virtual Boy, indicou. Ao chegar mais perto, viu algo que parecia um grande buraco no espaço.

Mergulhou nele, junto com o parceiro virtual, atravessou um túnel multicolorido a uma velocidade assustadora para emergir em uma dimensão paralela do hiperespaço, no qual flutuava uma hipernave estelar em forma de cilindro, com mais de um quilômetro de comprimento.

Assim que a viu, Jaya sentiu-se arrastada por um raio trator que a puxou suavemente para perto da hipernave. Logo viu-se junto do imenso casco metálico, que de perto parecia interminável. Abriu-se uma escotilha e Jaya foi atraída para seu interior, com Virtual Boy na sua cola.

A escotilha fechou-se atrás dela e o compartimento encheu-se de ar. Jaya recolheu o capacete, que foi reabsorvido pelo traje espacial.

A porta do compartimento pressurizado abriu-se para um longo corredor. Jaya caminhou através dele, até chegar a uma porta automática que dava para um amplo salão.

Ali a esperavam vários companheiros da Solidariedade Galáctica, homens, mulheres, inteligências artificiais e alienígenas. Assim que Jaya chegou, todos bradaram:

– Viva Jaya!!!  Viva Anael! Parabéns!!!

– Que é isso, gente? Nem é o meu aniversário!

– Não, mesmo? – perguntou a arquimestra Miyah, entrando pela porta do lado oposto – Mas, mesmo assim, temos um presente para vocês. Oficial Jaya e meio-oficial Anael, por decisão especial do Grande Conselho da Solidariedade Galáctica, ambos recebem, neste momento, a medalha de ouro da Vitória.

– Muito agradecida, mas não fizemos mais do que nossa obrigação...

– Obrigação, nada! – disse Virtual Boy – Nós arrasamos! Viva nós!

– Além disto – prosseguiu Miyah – pela coragem e sabedoria demonstrada em suas ações em favor da paz e da liberdade da Terra-2 e por decisão unânime do Grande Conselho, ambos estão promovidos a partir deste momento. Companheiros, palmas para a contramestra Jaya e o oficial Anael!

– Virtual B... – mas ninguém o ouviu, tão entusiasmados eram os aplausos.

– Ao banquete! – disse Miyah – O resto das novidades, contaremos depois.

 

Capítulo 2: as três mosqueteiras

Desde que havia chegado à Terra-2, Jaya não comia tão bem. O banquete havia sido realmente especial.

Miyah explicou-lhe as decisões tomadas pelo Grande Conselho. Agora que se sabia que o Império de Trantor cobiçava a Terra-2, a missão de contato e amizade com esse planeta havia subido vários degraus na lista de prioridades da Solidariedade Galáctica e seu cronograma havia sido acelerado. Jaya e Anael não estariam mais sozinhos. Três duplas de agentes iriam ajudá-los.

– As três garotas vieram, como vocês, do Sistema Solar da Terra-1. Já trabalharam juntas no primeiro contato com o planeta Niara e também combateram juntas a frota de Trantor na batalha de Quarrema, pilotando bombardeiros leves. Saíram-se muito bem em ambas as missões e ganharam fama como as três mosqueteiras da fronteira trantoriana. Tenho certeza de que você vai adorar trabalhar com elas e que Anael também vai gostar de seus parceiros. Venham comigo, vou fazer as apresentações.

Passarinhos e grandes insetos revoavam pela grande sala de estar da hipernave Shikasta, que tinha uma linda fonte luminosa e um cheiroso jardim tropical no seu centro. Rodeando o jardim, Miyah levou Jaya e Virtual Boy a uma mulher gigantesca, que tocava um enorme alaúde e usava apenas um colar, uma tanga muito leve e um par de sandálias. Tinha seguramente mais de dois metros de altura. Ela precisou se abaixar bastante para que Jaya lhe beijasse o rosto.

– Jaya e Anael, esta é Mirina. Ela nasceu na cidade marciana de Elísia, mas foi viver na Terra-1 e estudou na Universidade Interplanetária de Pindorama, como Jaya. É especialista em música e lingüística e uma das melhores compositoras da Solidariedade Galáctica. Sua parceira virtual é Saspam...

– Mas pode me chamar de Emília, Marquesa de Rabicó – disse uma figura pequenina e colorida, que saiu de trás dos calcanhares de Mirina.

– Emília? – perguntou Jaya – aquela do Monteiro Lobato?

– Fazer o quê, honey? – suspirou Mirina – quando Saspam descarregou os arquivos de literatura da Terra-2, caiu de paixão pelo Sítio do Pica-pau Amarelo e decidiu que ia ser a Emília. Quem me dera o affair fosse com Pinóquio, ou da I.A. do Spielberg... Talvez então ficasse boazinha, na esperança de virar um menino ou menina de verdade...

– Ei, gostei!– disse Virtual Boy – posso ser o Pedrinho?

– Não, nada disso! – disse Jaya. Eu não ficaria bem de Dona Benta. Nem de Tia Nastácia!

– Essa nova geração de inteligências artificiais é bem peculiar – comentou Miyah – Quando eu era oficial, elas eram bem mais formais, quase chatas.

– Você me mata de inveja – disse Jaya.

Miyah passou à segunda mosqueteira. Menos alta que Mirina – um metro e oitenta, talvez – mas os músculos desenvolvidos e a postura marcial a tornavam ainda mais imponente. A pele era acobreada e os traços, indígenas. Usava um cocar, couraça e botas e divertia-se com uma roda de metal dourado que lançava com muita habilidade e a fazia dar círculos, oitos e mil piruetas pelo salão, até cortar em duas metades exatamente iguais a fruta que ela havia mirado.

– Esta é Nandiraci, ou Nandi, da tribo das icamiabas. Nasceu na Terra-1, em Caranai, a terra das Amazonas. É campeã no lançamento da zepguagoscua, essa arma icamiaba que é uma versão aperfeiçoada do chakra indiano. Também é especialista em tecnologia militar, artista marcial e uma das melhores ases do combate interestelar que a Solidariedade Galáctica já teve. O terror dos trantorianos!

– É isso aí, companheira! Vamos fazer a rima! Com a nossa galera na fita esses vacilões vão chupar uma manguita – disse Nandi.

– Hã..? – Jaya.

– Ela gosta das gírias da Terra-2, mas às vezes as usa um pouco fora de contexto – explicou Miyah –. O parceiro dela se chama Yakasaganotz...

– Fui registrado com esse nome – disse disse o negrinho perneta, de carapuça e cachimbo – mas prefiro ser chamado de Pererê!

– Estou vendo. Parece que Saspam, digo, Emília, fez escola – disse Jaya.

Outra garota – uma mulata ágil de calças e bustiê brancos, mais ou menos da mesma altura de Jaya – chegou de repente, com uma cambalhota e um aú.

– E esta é Artemísia ou Temi, a terceira das mosqueteiras. Nasceu em Nhoesembé, na Terra-1 e estudou exosociologia e exofilosofia na Universidade Interplanetária Espinosa. Ah, e ganhou a medalha de ouro em capoeira, nas olimpíadas de 3998.

– Oi, Jaya, estou louca te mostrar meu plano psicossociológico para difundir noções sinergológicas e eleuteronômicas através de núcleos pró-ativos e diadóxicos...

– Tenho certeza de que vai ser um sucesso, Temi. – interrompeu Miyah. O parceiro dela é Tarasni, que também deve ter um apelido...

– Peter Pan, é claro! – disse o garoto de verde, que levitava logo acima.

– Acho que vai ser divertido trabalhar com vocês – disse Jaya.

– Pode crer, amizade! – respondeu Nandi – Conosco, ninguém podosco. Se cobrir é circo e se cercar vira hospício!

– Mas um hospício com muita, muita raça, ma chérie – gabou-se Mirina – por estranho que pareça, dá certo!

– Você vai ver, Jaya. Esse planetinha nunca mais vai ser o mesmo. No bom sentido, é claro – esclareceu Temi.

 

– Quero te apresentar mais um ser, Jaya – disse Miyah – este é o grão-mestre Metraton, que em tempos idos foi meu parceiro virtual. Hoje pilota a Shikasta.

– Muito prazer, Jaya – cumprimentou-a Metraton, sob a aparência de um jovem deus loiro de toga branca e barrete vermelho.

– Ah, o prazer é mesmo todo meu. Miyah, porque não fazem mais inteligências artificiais como antigamente?

– Ah, é? – irritou-se Virtual Boy – pois eu o desafio! Quero ver como se sai no Mestre de Órion 14000 – Batalha em Trantor.

– Eu aceito – respondeu Metraton – mas aviso que tenho cem anos de experiência em simulações de combate estelar, além de ter participado de 34 batalhas de verdade. Você já esteve em alguma?

– Batatal! – disse Emília – Eu torço pelo Virtual Boy! Vamos depenar esse convencido bem depenado!

– Eu também! – aderiu Peter Pan – Viva a nova geração!

– Vamos lá – disse Pererê – Pra mim, esse tio só é bom de papo.

– Incluam-me fora dessa – suspirou Jaya – Ah, inteligências artificiais. Será que nunca vão crescer?

Os virtuais foram jogar e os reais foram ao baile, que deu a Jaya a oportunidade de ver Mirina em ação como cantora e guitarrista e, também, de matar bem matadas as saudades dos garotos terrígenas. Talvez tivesse de ficar mais de um ano sem vê-los de novo.

Quando as terrígenas voltavam para os camarotes, deram de cara com um Metraton de cara séria e quatro baixinhos que comemoravam, ao sair da sala de jogos:

– Um, dois, três, Metraton é freguês!

– Talvez eu esteja um pouco enferrujado – desculpou-se o piloto da Shikasta ao ver a velha amiga – preciso dedicar mais tempo a meu treinamento.

– É – comentou Miyah para Jaya – talvez os novos programadores de IAs saibam o que fazem, afinal de contas.

– Os programadores, talvez. As programadoras, com certeza que não.

– Ah, Jaya, havia me esquecido. Jandira, a garota da Terra-2 que cedeu a identidade a você, mandou um beijão e disse que está adorando a Terra-1. Ela fez um tratamento nanotecnológico, virou praticamente uma terrígena e agora está estudando programação de IAs.

– Que bom. Ela estava tão perdida e sozinha na vida, aqui. Era uma garota inteligente, mas pobre e doente. Havia ficado órfã há pouco. Só tinha uma quitinete e uma Brasília velha, que herdou da mãe. Coitada, quando eu propus trocar suas coisas e seus documentos por uma vida nova na Terra-1, ficou tão assustada... Até pensou que ia ter de assinar com sangue.

– Como assim?

– Ah, é uma antiga superstição da Terra-2.

 

Capítulo 3: comandos em ação

O portão do hangar da Shikasta abriu-se e deixou sair as naves de Mirina, Nandi e Temi, que acionaram seus campos de invisibilidade assim que saíram pelo portal para o espaço normal.

Evitaram acionar os poderosos campos de superdistorção espacial, que poderiam alertar os sensores trantorianos. Usaram apenas os impulsores gravitacionais para se posicionarem na órbita geoestacionária.

Dinheiro para se arranjarem na Terra-2 não era problema. Já há um bom tempo, Jaya havia vendido algumas barras de platina que trouxera para fazer um pé-de-meia. Desde então, Anael vinha aplicando o resultado dessa venda em bolsas de valores. Já havia acumulado o suficiente para distribuir três milhões de dólares para cada uma, depositados em contas bem seguras na Suíça, ilhas Cayman e Hong Kong.

Conseguir identidades terráqueas para todas, porém, foi toda uma aventura. Temi não foi grande problema: rapidamente localizou uma garota pobre e sozinha na Cidade do Cabo que ficou felicíssima com a idéia de mudar de planeta. Já achar uma asiática compatível com as características físicas de Nandi não foi tão fácil. Depois de uma semana descobriram uma lutadora profissional de Muay Thay que havia ficado paralítica depois de uma luta mal sucedida. Ela aceitou ceder sua identidade em troca da cura e de uma passagem para a Terra-1.

O maior problema foi Mirina. Não havia muitas mulheres com mais de dois metros de altura que pudessem ser substituídas sem que ninguém notasse. Levaram três semanas para localizar Margarite Delvigne, uma jovem francesa que ganhava a vida exibindo-se como giganta em um circo italiano. Ela gostou da idéia de embarcar na Shikasta, que assim pôde finalmente partir e levar as três terráqueas para sua nova vida na Terra-1.

Tratou-se de pôr o plano em ação. Jaya seria responsável pela coordenação geral e das operações de investigação e Temi, pela coordenação da edição da campanha de convencimento dos povos da Terra-2. A missão de Mirina seria usar a cultura de massas para divulgar as mensagens que preparariam os terráqueos para muitas surpresas que os aguardavam.

Nandi vigiaria os movimentos dos trantorianos e dos militares terráqueos e, se houvesse necessidade de batalhas estelares, assumiria o comando do esquadrão. Até que a campanha atingisse o ponto crítico, todas deveriam procurar manter sua origem em segredo, salvo para pessoas cuidadosamente escolhidas. Jaya cuidaria preferencialmente de acompanhar a evolução da opinião pública e dos acontecimentos nas Américas e na Oceania; Mirina, na Europa e no Oriente Médio; Temi, na África; e Nandi, na Ásia.

Margarite Delvigne não demorou para se tornar uma estrela. Seu corpo de super-hiper-megamodelo e seu repertório de ousadias musicais, literárias e comportamentais, dois mil anos à frente do terráqueo, lhe garantiram sucesso global e instantâneo, assim que largou o circo e se apresentou em um programa de calouros da RAI com o pseudônimo de Mirina.

Muitas tevês, rádios e gravadoras fizeram o possível para boicotar suas mensagens revolucionárias e pacifistas, principalmente as da Tuft Corporation. Mas não era tão fácil esconder uma atriz e cantora que, além de fazer Gisele Bündchen parecer um toquinho desajeitado, era inteligente, talentosa e escandalosa, falava e cantava em cinqüenta línguas e compunha, cantava e interpretava todo tipo de música com a mesma genialidade.

Todo tipo não era maneira de dizer. Era todo, mesmo: samba, bossa-nova, xaxado, salsa, rock, música eletrônica, funk, heavy metal, valsa vienense, raga indiana, reggae, dança do ventre, ópera e música erudita, além de muitos gêneros de que ninguém jamais ouvira falar. Quando não podiam aparecer no rádio ou na tevê, seus poemas, músicas e vídeos se espalhavam através da Internet.

Ela autorizou expressamente a cópia da maior parte de sua impressionante produção em MP3. Em semanas, os membros de seu fã-clube eram contados aos milhões e não havia canto do mundo civilizado que não estivesse ouvindo as músicas e vendo os clipes de Mirina no gênero que mais lhe agradasse e em sua própria língua. Ela havia se tornado uma indústria global de entretenimento numa só pessoa – se bem que algumas das letras eram assinadas pelas misteriosas Jaya, Artemísia e Nandi, que ninguém sabia quem eram.

Se ela pedia aos fãs para boicotar os produtos desta ou daquela empresa que agredia o meio ambiente, maltratava os empregados, ou de um país que ameaçava fazer a guerra, o boicote era para valer. As vendas despencavam em questão de dias, até que a tal empresa ou o tal governo mudassem publicamente de atitude. A Tuft começou a ficar seriamente desconfiada de que ali havia algo mais do que um fenômeno pop e que podia ser bem perigoso para seus planos.